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sábado, 7 de julho de 2012

Se o seu banco lhe creditasse todos os dias 86400 euros na sua conta? - Fernando António Oliveira


Se o seu banco lhe creditasse todos os dias 86400 euros na sua conta, e no final do dia, quer os tivesse utilizado ou não, ele reduzisse o seu crédito a zero, você não tentaria tirar deles o melhor proveito possível?
Pois bem, esse banco existe. Chama-se Tempo. Todos os dias ele deposita 86400 segundos na sua conta e só você pode tirar deles o melhor proveito, assim como só você é responsável pelo uso que lhes der. Quando me refiro a usar o tempo não me refiro apenas a preenchê-lo, mas a desfrutar dele. Faça tudo aquilo que deseja fazer e lhe dá prazer e não apenas aquilo que lhe parece que lhe trará mais benefícios: Saia, passeie, leia, faça um picnic com a sua amada, brinque com os seus filhos.... .
Lembrem-se de que tudo o que tem valor tem o seu custo, mas que este custo nem sempre é em dinheiro. No fim de contas só um idiota confunde o valor com o preço. Não acreditam?
O dinheiro compra a cama, mas não o sono. Compra os livros, mas não a sabedoria. Compra uma casa, mas não um lar. Compra medicamentos, mas não saúde. Compra ajudantes, mas não amigos. Compra o casamento, mas não o amor. Compra o crucifixo, mas não a fé. Compra um lugar no cemitério, mas não compra o céu.
Não dês ao dinheiro mais valor do que aquele que ele verdadeiramente tem. O dinheiro deve ser apenas um meio para obter algo, nunca um fim em si mesmo. Ele é importante, sem dúvida, mas só no caso de não morreres já amanhã. Além disso não adianta ser rico e ter roupas caras se o melhor da vida nós fazemos nus.

O tempo... Raduan Nassar


O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor;

 embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento;

sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza:

 não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo;

omnipresente, o tempo está em tudo;

existe tempo, por exemplo, nessa mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia;

existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia;

 rico não é o homem que colecciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas;

 rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira;

o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso ninguém em nossa casa a de dar o passo mais largo que a perna:

dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; (...)

Raduan Nassar

Trecho do seu livro Lavoura arcaica (1975)